quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Amor e a Revelação do Propósito

Temos desenvolvido uma temática sobre relacionamentos cristãos, buscando uma reflexão que seja bíblica em primeiro lugar, porém que não deixe de avaliar o tempo em que vivemos, as estratégias do deus deste século, a mentalidade corrompida desta geração, os sofismas e os argumentos que são contrários ao conhecimento da graça de Deus. Percebemos o quanto é difícil para um jovem hoje, participante ou não de uma comunidade evangélica, compreender os princípios do evangelho. Para eles, seria muito mais compreensível um livrinho de regras fundamentado em doutrinas de homens que, como Paulo afirma em Colossenses 2:20-23, não têm valor algum para refrear os impulsos da carne, ou seja, nossa sensualidade.
            Porém, queremos falar um pouco sobre um princípio muito importante de se observar em um relacionamento que levará ao casamento. Esse princípio se relaciona com o conhecimento da relação entre Tempo, Propósito e a Condição em que nos encontramos. Este conhecimento se dá na revelação de quem nós somos, quem o outro é, e o propósito de Deus na minha vida e na da pessoa que está próxima a mim.
            Em Eclesiastes capítulo 3 existe uma relação entre tempo e propósito muito clara: “há tempo certo para cada propósito debaixo do céu (vs.01)”.  Percebemos que para tudo que planejamos ou nos propomos a fazer existe um momento certo, mas se avaliarmos mais profundamente perceberemos que Deus não tem como característica ficar pré-determinando as coisas no céu, Ele nós dá livre arbítrio para escolhermos, decidirmos, podendo escolher por quem nós queremos ser influenciados, se por Sua palavra, graça e amor, ou pelo contexto social, cultural, familiar e tantas outras possibilidades.
            Nesse sentido, o que determina o tempo certo não é determinação impositiva de Deus, mas sim a nossa condição naquele momento. Ora, Deus tem pensamentos bons e quer que vençamos em tudo, mas muitas vezes na nossa condição espiritual, emocional, cognitiva, podemos não estar preparados para receber algo que apesar de ser muito bom não temos estrutura para receber. Assim, a condição financeira, emocional ou espiritual de uma pessoa pode revelar não ser um bom momento para se casar. Precisamos entender que as bênçãos já nos foram dadas, porém o tempo de recebê-las depende da nossa condição.
            Existem pessoas que estão tão profundamente distantes da compreensão do amor de Deus e da sua realidade em Cristo que, se buscarem um relacionamento, poderão destruir a pessoa com qual vão se casar.
            Outra questão importante é o conhecimento do propósito. Uma pessoa que não entendeu o propósito de Deus na sua vida pode tomar um monte de decisões erradas. Os desafios que você encara na vida também determinam o tempo de muita coisa. Imagine um jovem que está se dedicando aos estudos, ele está envolvido em um propósito que vai determinar o tempo de muitas coisas na sua vida. Talvez ele tenha que adiar muitas coisas divertidas que ele gostaria de fazer, mas que o tiraria do propósito de estudar. O projeto de se formar tem levado muitos jovens a se casarem mais tarde do que os jovens de outras épocas, e, ainda que desejem se casar entendem que não é o tempo, pois têm um propósito que os levarão a uma condição de cumprir um outro propósito que é o casamento.
            Para entendermos melhor esses princípios vamos caminhar na história de José e Maria em Mateus capítulo 1:18-25.
            Em primeiro lugar, podemos verificar nesse texto uma questão muito interessante que nós já mencionamos nas discussões anteriores, que é a expectativa de José. Maria naquela sociedade era uma mulher muito valorizada, era virgem, com certeza de muita fé, submissa, de família. Então, quando José percebeu que ela frustrara as suas expectativas, os seus propósitos mudaram. Agora ele queria deixá-la, sua frustração era maior que o seu compromisso. É bem provável que Maria tenha tentado explicar-se, porém o afeto de José estava direcionado à satisfação das suas expectativas e não a Maria. Lembre-se que afetos passivos direcionados por carências inconscientes em que buscamos no outro a satisfação dessas carências são os indícios de uma relação baseada em paixões e não em amor.
            Em segundo lugar, José era um homem de muitas qualidades, justo, discreto, piedoso, porém ele era uma pessoa sem revelação, sem o discernimento de quem Maria era. Então, foi necessário um anjo do Senhor para trabalhar isso nele. O anjo foi falar sobre quem era aquela mulher que estava do lado dele e qual era o projeto para a vida dela. O anjo não falou “case-se com Maria”, ele disse “não tenha medo”, pois o que José precisava entender é que no amor não existe medo (I João 4:18), pois o medo revelava as expectativas e carências, sendo que quando me relaciono baseado nessas condições eu crio a possibilidade de me frustrar, de me decepcionar. Quem não cria expectativas não tem chance de conhecer a frustração. O amor é algo que nós damos ao outro, não o que nós comercializamos. É uma convicção do que podemos dar e não do que queremos receber.
            Muitas pessoas estão se relacionando na expectativa de ser, como se aquela pessoa do seu lado é quem vai possibilitar que ele seja alguém mais valorizado, amado, respeitado. Quantos no mundo afora estão buscando uma mulher fisicamente bonita para satisfação de suas expectativas de ser observado, valorizado pela sua conquista, ou seja, a sua companheira é o seu status. Outros estão buscando alguém que lhes dê o abraço que eles nunca receberam, o beijo, o carinho que nunca conheceram, ou seja, a sua companheira é sua adulação. Somente quem tem conhecimento de suas possibilidades, entendendo que o que lhe foi carência não as anula, é que pode decidir amar, decidir dar o que não recebeu sem esperar nada em troca. Porém, não se preocupe, uma pessoa que age assim, com esta disposição e convicção, receberá muito mais do que alguém que faz alguma coisa para o outro como troca.
            Em terceiro lugar, José teve que perceber que aquilo que eram as limitações de Maria era a oportunidade que ele tinha de fazer diferença na vida dela. Só quem ama pode, ao invés de julgar ou se frustrar com a fraqueza do outro, fazer diferença oferecendo ajuda, compreensão, estendendo a mão. A gravidez era uma limitação para Maria no relacionamento, mas José era quem mais poderia ajudá-la. Quando a pessoa com quem nos relacionamos revela limitações, a nossa atitude em relação a isso é que vai revelar àquela pessoa se a amamos ou se estávamos com ela na expectativa de que ela não errasse. Por isso vemos tanta insegurança nos relacionamentos e no triste fim de um relacionamento afirmando que nunca conhecera aquele com quem convivera tanto tempo. Mas claro, estavam se escondendo um do outro, com medo de frustrar expectativas, porque sabiam da fragilidade de seus relacionamentos.
            Em quarto lugar, José precisava conhecer o propósito de Maria. Deus tinha um propósito para Maria, ela estava comprometida com algo que traria relevância à sua existência e que cumpriria um projeto de Deus, a sua vocação. Talvez aqui se verifique uma das principais questões relacionadas ao jugo desigual. Jovens para se casar precisam verificar a missão um do outro, seus projetos de vida para que não construam estradas opostas em suas vidas. Quantas pessoas hoje têm uma vocação Divina tremenda, mas estão totalmente paralisados espiritualmente, justamente porque se casaram. Não avaliaram a missão de quem iria estar ao seu lado o resto de suas vidas. Claro que agora que se casaram não podem mudar mais isso, o casamento é uma aliança eterna diante de Deus, o que eles precisam é buscar em Deus o direcionamento de um caminho comum, onde um possa cooperar com o outro para o cumprimento do propósito de Deus em suas vidas.
            Para as pessoas que pretendem se casar é necessário avaliar a missão, o projeto de vida, o propósito de quem vai estar ao seu lado. Muitos pastores estão chorando hoje porque suas esposas não concordam com a escolha do seu marido. Quantas mulheres reclamam porque seus maridos as impedem de estudar, trabalhar, se desenvolver em diversas áreas por acharem que isso é algo desnecessário. Então, se o princípio do amor é buscar o bem do outro, você deve avaliar se seu propósito, sua missão, seu projeto de vida, coopera com o bem da pessoa que você pretende se casar. Você precisa avaliar se amando aquela pessoa a melhor decisão é se casar com ela. Por isso o amor é diferente da paixão, pois ele é um afeto ativo, onde eu tenho sempre a possibilidade de escolher, de decidir, não é uma força que me domina ou escraviza.
            Em quinto lugar, quando José entende esses princípios, o que aquela relação passa a revelar é o amor e o amor vence o pecado. Quem ama busca, em primeiro lugar, o bem do outro, quem ama não defrauda, não abandona, não julga, não destrói. Quem ama se envolve, dá a mão, aceita, se santifica. Ao lermos a epístola de I João entendemos que quem conhece o amor vence o pecado, quem vive pecando não conheceu o amor. Para amar precisamos vencer as nossas carências, pois quem acha que é incompleto, ou que só pode satisfazer suas carências em pessoas, não consegue amar a si mesmo, na verdade se torna egoísta. Mas, quem conheceu o amor de Deus e o que Ele nos dá, tem consciência de suas possibilidades de amar e fazer a pessoa do seu lado muito feliz.
            Finalmente, José entendeu que ele deveria esperar para ter relações íntimas com Maria. A condição em que aquela mulher se encontrava e o propósito dela estavam revelando a José o tempo que ele deveria esperar para possuir a sua esposa em intimidade sexual. Todo jovem que entende esses princípios não vai ultrapassar limites, defraudar pessoas ou se deixar dominar pela sensualidade, pois ele saberá avaliar a sua condição e da pessoa com quem ele se relaciona, avaliará também o propósito de Deus na sua vida e na vida do outro e essa compreensão, essa revelação profunda que só alcança quem deseja se envolver com as pessoas pela motivação correta, vai guiá-lo na identificação do tempo. Jovem, existe um tempo para tudo acontecer na sua vida, mas é a sua condição e seu propósito que vão determinar o momento certo de todas as coisas.
            Espero que estas palavras te façam refletir, compreender e discernir todas as coisas (I Coríntios 2:15), deixando de ser influenciado pelo mundo ao seu redor, com seus valores corrompidos e suas idéias hedonistas* e destituídas de propósitos nobres. Temos a oportunidade de revelar uma consciência pura, um coração comprometido com as pessoas e uma atitude baseada na transformação da mente e não nas proibições, regras e leis de homens sem conhecimento de Deus e da sua Graça.

*hedonismo: Doutrina que considera que o prazer individual e imediato é o único bem possível.

RHONE GIULLIAN  Psicólogo e Educador Sexual

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