quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

É PROIBIDO SER VIRGEM!

Sou nascido na década de setenta, um tempo em que ainda era constrangedor moças jovens não se casarem virgens, não se via por aí mulheres celebrando quantos caras pegou, com quem dormiu, não se carregava as medalhas da vitória de ter tido diferentes parceiros. Naquele tempo a Psicanálise deitava e rolava na subjetividade coletiva com as idéias de repressão da pulsão, do id, da libido e tantas outras representações sobre as somatizações advindas das limitações e pudores sexuais.
Atualmente a psicanálise está tendo que se reinventar, vemos uma liberação da fala e da ação sexual que seriam impensadas a alguns séculos atrás. Se as repressões eram causa de doenças, agora o que nos parece são as exacerbaçõe. O pêndolo comportamental saiu de um extremo a outro e a população continua aprisionada na sua sexualidade.
Nunca antes se sofisticou tanto o sexo, nunca se viu tantos instrumentos, livros, cursos, teorias, mas o que não se vê é um amadurecimento sexual. Tem muita coisa cercando o prazer de uma pessoa determinando sua satisfação, a palavra certa, o cheiro certo, a roupa certa, senão nada feito. Outros estão limitados pelo prazer arriscado, perigoso, outros ainda pelos lugares, situações ou pessoas diferentes. As fantasias são inovações e limitações pra quem não consegue ter prazer para além delas. A tudo isso temos chamado de avanço, liberdade.
Nosso discurso mudou bastante do século XX para o XXI, a influência da década de 60 foi um divisor de águas e hoje temos tanta liberdade que muitas crianças sabem mais que os avós sobre o assunto. Estamos no tempo dos precoces, fala-se em liberdade sexual até para os antigamente denominados pré-adolescentes de 13 anos. Hoje depois dos 15, sem relação sexual, o indivíduo é considerado travado, é imaturo, inocente e muitos outros adjetivos.
Tudo isso parece muito contraditório, por que existe uma nova regra coordenando a sexualidade, tem novas proibições em pauta, tem novas vergonhas sexuais, censuras sociais, parece que só viramos a moeda, mas estamos adoecendo da mesma forma, a imaturidade continua.
Falar de liberdade sexual é considerar a pessoa ativa, pensante, instrumentalizada a decidir sua sexualidade, a enxergar os determinantes e influências e conscientemente decidir o seu viver sexual. Fala-se também de uma sexualidade que é livre de limites conceituais, que é para além do ato, do toque, que está em todo o desejo que nos move. Então liberdade sexual só se vive na maturidade almática, personológica, onde eu posso escolher não por pressões, mas por consciência, autoconhecimento, doação de quem dá o melhor de si sem se sentir vazio, mas satisfatoriamente preenchido.
Pra mim, o principal estandarte da falsa liberdade sexual que vivemos é a condenação da virgindade. Hoje a virgindade em adolescentes e jovens é sinônimo de problemas emocionais, de falta de consciência, e contraditoriamente a outros tempos, virgindade parece pecado. A escolha da virgindade é previamente condenada, não tem conversa, ta errado, é coisa de gente careta, de religioso puritano, de quem não sabe o que ta perdendo. Mas fica uma pergunta, estamos respeitando as escolhas, será que isso não é mais uma repressão social?
Falar de liberdade sexual é falar de escolhas conscientes, de vivencias refletidas, onde eu posso entender as motivações e as conseqüências. Onde eu posso saber a sexualidade não nas suas sofisticações, mas nas suas possibilidades e impossibilidades, sendo as limitações, aquelas que eu me faço a partir daquilo que entendo, que compreendo como bom, sempre respeitando a liberdade do outro. Sexualidade é liberdade individual, mas que não desconsidera outras pessoas. As possibilidades sexuais verdadeiras são aquelas que me trazem um prazer confiante, que me preenchem e não que me esvaziam. Que me dão o direito de dizer sim, mas também não. A liberdade é dada a quem quer vivenciar diferentes transas, mas também a quem quer sublimar desejos em benefício das pessoas, como por exemplo fazem alguns religiosos. A doença sexual não é do que restringe as suas vivências físicas, nem dos que as exarcebam, mas sim daqueles que não compreendem por que assim reagem, daqueles que são limitados pelo pensamento dos outros sem refletir criticamente sobre suas vontades.
Nesse sentido, quero exaltar aqueles que decidem conscientemente pela virgindade, não pela idéia de virtude da virgindade, mas pela coragem de encararem as proibições sociais sem sentido, por escolherem a partir de sonhos ou projetos de vida. Fiquem firmes, não tenham medo de testificarem sua opção, sejam livres para serem virgens ou não, sejam sujeitos para decidir sua sexualidade.

Rhone Giullian
Psicólogo especialista em Psicologia Escolar com projetos desenvolvidos na orientação sexual de crianças e adolescentes em escolas.

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