O amor e a paixão
A temática sobre relacionamentos é sempre bem vinda em qualquer situação, ambiente ou contexto. Isso se deve ao fato de que nós seres humanos somos imagem de um Deus que é em essência relacional. É isso que o Apóstolo João quer dizer quando afirma que Deus é amor. O relacionamento da trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, é a expressão na eternidade do amor, onde os três na verdade são um. Esse mistério se torna ainda maior quando o próprio Cristo nos diz que o Seu desejo é que nós sejamos um com Ele como Ele e o Pai são um. Irmãos, nos relacionaremos com um Deus trino por toda eternidade sem nos separar e a cada momento nessa eternidade teremos o privilégio de conhecer mais do amor de Deus.
Talvez o mistério da eternidade possa nos deixar atônitos e sem compreensão, mas este é o objetivo de Deus, se relacionar íntima e profundamente com a Sua criação mais plena que é o ser humano. Sendo a imagem segundo a semelhança de Deus, somos seres relacionais que carregam na sua constituição genética a necessidade de relacionamentos. O homem nasce com toda estrutura biológica para se tornar humano, porém as características que nos diferenciam dos animais são adquiridas nos relacionamentos sociais, na interiorização da cultura através da linguagem e dos relacionamentos. Um homem, diferente dos animais que são de características instintivas e inatas, precisa aprender as características que o tornarão um ser consciente e pensante. Assim, Deus nos revela a característica mais plena da Sua imagem no fato de o homem não sobreviver sem relacionamentos.
Como já falamos no nosso primeiro estudo (O amor vence o Pecado), Deus fez o homem e o abençoou tornando-o um ser produtivo que deveria produzir, oferecer, doar. Porém, o diabo convenceu o homem de que lhe faltava algo, gerando nele uma cobiça que o levaria a ser dominado pelo desejo, pela carência, gerando assim o que vamos chamar aqui de paixão.
Paixão na Bíblia está ligada à Carne e seus Desejos, ou seja, à Cobiça. Em Gálatas, no capítulo 5, temos uma discussão pequena, porém profunda, sobre o amor e a paixão. Paulo coloca uma lista de atitudes que são motivadas por carências, medos, desejos incontrolados, que são na verdade frutos de afetos passivos, ou seja, motivações que dominam o homem de uma forma que este é impelido a realizar ações que não gostaria de fazer. A palavra Paixão nos leva à idéia de passividade, um afeto que nos domina e nos impele a atitudes negativas. Assim, a principal característica da paixão é o fato do homem se tornar objeto de emoções que na maioria das vezes são inconscientes.
O ciúme, por exemplo, é resultado de uma paixão, onde eu tenho medo de perder algo que eu quero possuir, demonstrando minha total falta de certeza se é meu ou não. O ciúme pode justamente ser o causador da perda daquilo que tanto queríamos dominar, mas é uma paixão que vem dominando a pessoa fazendo desta seu objeto passivo. Agora, de onde vem tanto medo de perder? A resposta a esta pergunta revelará alguma situação que esta pessoa vivenciou que provavelmente não está na sua consciência. De uma forma bem compreensiva para os leitores, sem querer dar aqui uma explicação complexa, vamos considerar as questões inconscientes como tudo aquilo que foi de alguma forma parte da nossa experiência passada, mas que não pode ser acessado por nós de forma consciente e lúcida e ainda pode nos influenciar em nossas atitudes sem que percebamos.
Muitas pessoas que se dizem apaixonadas, “caídas” de paixão, se vêem evolvidas pelas características que Paulo coloca como obras da carne, como imoralidade sexual, libertinagem, ódio, discórdia, ciúmes, iras, dissensões, inveja, embriaguez e como ele diz, qualquer coisa semelhante a esta, que são geradas por afetos de natureza passiva que dominam as pessoas. Por isso que, ao iniciar o capítulo 5 de Gálatas, ele coloca a temática que irá discutir que é a Liberdade, assim, estar apaixonado é estar preso, dominado, escravo de desejos e cobiças que expressam carências inconscientes e muitas vezes incontroláveis.
Porém, é nesse contexto meio ameaçador para nós, pobres homens de natureza carnal, que Paulo nos revela a solução: “Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com suas Paixões e os seus Desejos”.
Só existe um caminho para vencermos: é a graça de Deus revelada em Cristo Jesus , compreendendo que já morremos com Cristo e se morremos com Ele não seremos dominados pelo pecado e pela carne. Em Romanos, no capítulo 6, Paulo nos diz que devemos nos considerar mortos para o pecado e que este jamais terá domínio sobre nós, e que não podemos nos deixar dominar pelos nossos desejos carnais, deixando de sermos escravos e sabendo que ressuscitamos com Cristo e agora a nossa vida é a vida que Cristo nos deu.
Em Gálatas 2:20 Paulo fala da vida de Cristo em nós e em Romanos 8:16 fala que somos filhos de Deus. Isso nos revela que temos a identidade de Cristo, uma nova natureza, um espírito ressuscitado, e agora o Espírito Santo comunica com o nosso espírito que somos filhos com a identidade de Cristo em nós. Esse relacionamento do Espírito de Deus com o nosso espírito frutifica e a primeira característica desse fruto é o amor. Em Gálatas 5:22 e 23, todas a outras características do fruto ali descritas são resultados, expressões do amor.
Em Romanos 5:5 entendemos que o amor é derramado em nossos corações pelo Espírito de Deus. Assim, não somos obrigados por Deus a amar, mas temos o privilégio e toda a possibilidade de amar porque o amor é algo que nós temos em abundância, derramando em nossos corações.
O amor, diferentemente da paixão, é um afeto ativo, é uma atitude caracterizada pela decisão consciente, ninguém pode amar sendo aprisionado pelo amor. Quando falamos em amor não estamos falando de um sentimento ou emoção influenciado pela carência ou pela necessidade emocional, mas sim pelo conhecimento de quem se é e de quem é o outro a quem decidimos amar. Quem conhece o amor ama a si próprio e às outras pessoas. Quem não ama a si próprio, provavelmente sente que tem carências, faltas, prejuízos que precisam ser sanados para que então a pessoa ame a si. Agora, quem conhece a sua identidade em Deus não tem dificuldades de amar nem mesmo o inimigo, pois todas as características do amor são atitudes as quais eu posso decidir disponibilizar a qualquer pessoa.
Tudo isso parece complicado para uma sociedade de mercado, onde tudo é uma troca, é ganho, lucro. Aprendemos na cultura e nas relações sociais a nos envolver com pessoas pelo que elas podem nos oferecer, então estamos nos vendo como pessoas incompletas, carentes de coisas exteriores que nos satisfaçam. Portanto, quem assim se relaciona constrói expectativas em relação às pessoas ao seu redor dando lugar à possibilidade quase que certa de uma frustração. E por que frustração? Porque essas carências ninguém pode suprir, ninguém vai te dar o abraço que seu pai não te deu, nem toda beleza de uma companheira vai conseguir acabar com a sua necessidade de ser olhado e valorizado por coisas exteriores a você, porém uma coisa é possível, que você fira todas as pessoas ao seu redor por elas não serem capazes de suprir toda essas carências emocionais.
Veja como a paixão é caracterizada pela falta de consciência de si e do outro. Não existe amor que não inicie em uma decisão consciente de suas possibilidades, é por isso que no amor não existe medo, porque quem ama perde todo o receio de se envolver, de dar, pelo simples fato de que a pessoa que ama não cria expectativas, não dando lugar a frustrações. Quem ama acredita que o ato de amar é o grande privilégio, independente do que a pessoa amada vai dar em resposta. A pessoa que ama é livre, é capaz, é completa, porque está dando algo que lhe sobra e não algo que lhe falta. Porém, para que isso se torne uma realidade precisamos conhecer-nos e ultrapassar as nossas carências.
Meu irmão, você precisa conhecer o amor e este está revelado em Jesus Cristo (Efésios 3:17 a 19). Conhecendo esse amor você saberá todas as medidas e possibilidades, pois ele excede todo entendimento humano corrompido por uma maneira de pensar capitalista, mercantilista, em que as pessoas se tornaram mercadorias e onde a paixão frágil e sem fundamento está presente nos relacionamentos. Sendo tomado pela consciência do amor de Cristo você será tomado pela compreensão de que você tem a plenitude do amor (Colossenses 2:9).
Muitas pessoas acreditam que o problema do amor é encontrar alguém para amar, essa talvez seja a principal prova de que não entendeu o que é o amor. Pois o amor não está no outro, sendo algo que você não controla, mas está em você. Claro , que quando falamos em consciência estamos falando de conhecer, de entender, de avaliar verdadeiras possibilidades. Por isso, não estou dizendo que você deve se casar com qualquer pessoa ou com a primeira que lhe pedir em casamento. Existem outros princípios que devem ser avaliados como, por exemplo, o princípio do jugo desigual, avaliar a missão que a pessoa tem, ou mesmo seu projeto de vida etc.
Agora, o que estou dizendo é que muitos maridos precisam decidir amar suas esposas, porque se casaram baseados em paixões e expectativas e agora estão frustrados pensando em divorciar e buscar outra pessoa para tentar saciar essas carências. Estou dizendo também que muitos relacionamentos entre jovens cristãos estão fadados ao fracasso pelo fato de serem firmados nos frágeis alicerces da paixão. Jovem, você pode amar ao seu amigo e à sua amiga com a mesma intensidade, porque amor não muda de amigo para mãe ou esposa, amor é um só, o amor de Deus. Se você decidir amar sua(seu) namorada(o), você provará as delícias do amor e saberá esperar a hora certa de aproveitar toda a intimidade de um casal.
Entendam, a famosa química eu posso sentir com qualquer mulher e uma mulher com qualquer homem que se viu uma só vez. Porém, o amor verdadeiro de um marido ou uma esposa vai promover uma satisfação amorosa e sexual com uma intensidade incomparável. Um relacionamento sexual entre um casal que se ama é tomado de liberdade e só na liberdade eu posso encontrar a plenitude do prazer. Então jovem, aprenda a amar no seu relacionamento de namoro, assim você não vai defraudar, nem usar a pessoa para satisfazer suas carências, nem tampouco vai correr o risco de não se realizar, pelo contrário, você conhecerá a plenitude da realização em todas as áreas do seu relacionamento e quando se casar se tornará uma pessoa mais completa e realizada. Deus te abençõe!
RHONE GIULLIAN
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