
A cosmovisão do Brasileiro
O Brasil, dentre alguns países, é celebrado como país da vez, mérito não tanto político, nem muito administrativo, mas um mérito fruto de um potencial enorme e muito pouco explorado. A contradição entre um enorme potencial e o pouco aproveitamento está no baixo investimento em educação, preparo científico e consequentemente mão de obra qualificada.
Um outro impedimento é nossa constituição histórica, desde a colonização construímos ideias de familismo, clientelismo e imperialismo dentre outros males. Somos passivos diante de um Estado que só serve a elite, de uma estrutura que funciona na base do amigos e familiares, onde só é quando se conhece alguém. “Eu sou filho do fulano”, “amigo do ciclano”, “você sabe com quem está falando?”, são tantas corrupções que até parece aos olhos dos trambiqueiros que o vale a pena ser desonesto no Brasil.
A ideologia é que temos direito, que temos liberdade, mas ao termos direitos expressos numa bem elaborada constituição, não temos aproximação da mesma, temos direitos, mas não sabemos, assim não podemos reclamar.
A cosmovisão da igreja brasileira
A igreja Brasileira seguiu a tendência comum e se deixou influenciar. É interessante perceber que as igrejas que se firmaram em princípios de igrejas europeias, carregam uma postura de governo, estrutura e administração distintos das igrejas neopentecostais brasileiras, que na sua maioria já nasceram fruto separações dentro de igrejas europeias e americanas, que geraram outras e outras. As novas igrejas são, grande parte, fundadas por homens com grande capacidade de influência, que criam ministérios familiares, com liderança centralizadora, com doutrinas rasas e administração financeira escusa. Agora, os membros das igrejas também carregam uma cultura de ligação frágil com as instituições eclesiásticas, de forma que não se segue uma igreja por uma consciência teológica ou ideológica, mas a igreja que me agrada, que me atende nas minhas necessidades e carências.
A vontade de Deus diante de tal realidade
Deus deseja nos livrar desse lugar de passividade, dessa cosmovisão empobrecida e nos levar à maturidade, uma fé que é fruto de conhecimento, discernimento e participação ativa na transformação da nossa realidade e de todo o contexto ao nosso redor. Vamos caminhar nessa compreensão a partir da Palavra do Senhor.
João 16:7,16,17, 19-23.
O Contexto de João 16 mostra o desafio que Jesus tinha ao trazer o desafio da maturidade para os discípulos, o tempo em que na sua ausência eles seriam perseguidos, caluniados, ameaçados e teriam outro conselheiro, que lhes ensinaria e eles agora teriam não mais que depender da presença física de Jesus, mas seriam, agora, a representação do Cristo na terra e falariam em seu nome.
Jesus está dizendo isto usando uma fala sobre o nascimento da criança, o parto. A dor do parto é angustiante, traumática, mas traz alegria e quando do nascimento, o sofrimento do processo sai de cena e entra a alegria de ter trazido ao mundo uma pessoa, com isto o Senhor nos traz algumas lições:
Ø O processo de maturidade é doloroso, mas seu resultado vale muito a pena;
Ø Que o consolador, o conselheiro é o mesmo Espírito em muitas vozes. Cristo agora em muitos;
Ø Que aquele momento era como a relação uterina, mas quando da morte e ressureição de Cristo, eles passariam pelo desafio de “nascer” pro mundo enquanto os filhos de Deus.
Moisés e Jesus, dois exemplos da relação uterina:
Tanto o momento do deserto com Moisés, quanto o momento com Jesus falam da relação uterina.
Moisés:
No deserto chovia pão, surgia água fresca, ar condicionado e ar quente, de noite a nuvem de fogo protegendo do frio e durante o dia uma nuvem protegendo do calor. No deserto Moisés era a garantia do sucesso ou a possibilidade do fracasso, se pecado ele clamava, se perseguidos ele intercedia, tudo estava nas costas do Moisés, tanto que seu sogro o confronta em Êxodo 18 na sua centralização. Com Moisés o povo se tornou imaturo e murmurador.
A decisão de Deus é matar o povo murmurador e imaturo, matar uma mentalidade escrava e imperialista, passiva e carente. Mas Deus também quis matar uma liderança que promovia e permitia tal situação, se deixando conformar na expectativa do povo.
Jesus:
Jesus entendendo que seu objetivo era formar discípulos maduros, mostra que pra isso era necessário que morresse, pois com Jesus tudo ficava numa certa garantia e dependência, pois se houvesse fome ele multiplicava os pães, se quisessem vinho ela da água o trazia, se em risco de morte, ele ressuscitava, por isso o Pedro com Jesus podia ter a ousadia de cortar a orelha de um soldado. Mas Jesus, sabendo disso, mostrava que tinha um projeto onde o Jesus enquanto indivíduo deveria passar e o Cristo enquanto coletividade do corpo místico, deveria surgir.
O que é a Terra Prometida e a Igreja
Assim, a Terra prometida é o abandono de uma fé contemplativa para a participativa, onde fé é atitude e comportamento. E a igreja fundada com os discípulos deixava de depender de Jesus enquanto percepção individual e surgia a partir do Cristo enquanto manifestação coletiva. Pra chegar nessa realidade caminhamos sentindo a dor do parto, mas é o único caminho da maturidade espiritual.
Pra que está realidade aconteça precisamos:
Em primeiro lugar, matar a mentalidade escrava e a liderança condescendente e matriarcal.
Exemplos: Com a morte de Moisés e o trabalho desenvolvido por Josué, surge uma nova experiência de liderança compartilhada, ativa e cooperativa em Juízes, tanto que Judá faz aliança com Simeão neste sentido. Na liderança da igreja depois da assunção de Cristo, surgem personagens que lideram em diferentes momentos, primeiro Pedro, depois Tiago, depois sai de cena a igreja de Jerusalém e entra em cena a igreja de Antioquia. E agora somos o Cristo em todo o lugar, suas mãos, pés, voz, enfim, seu corpo chega a todo lugar através de nós (Jo. 14:12) por isso obras maiores se fará. Jesus está em toda parte em que está um Cristão.
Em segundo lugar, a experiência de vocação, propósito e responsabilidade em Deus tem que ser para todos e não privilégio do indivíduo.
Exemplos: Moisés falava com Deus, mas o povo não queria se quer ouvir a voz de Deus (Ex. 19:13), queriam que Moisés fosse o intermediário (Ex. 19:19-21) e ele aceitou sem questionamentos. Mas quando essa mentalidade morre, temos a liderança de Josué onde a experiência com Deus é coletiva, em Josué 5, na circuncisão.
Jesus tem uma experiência individual com Espírito Santo (Mt. 3:16), mas fala aos discípulos que desejava que eles vivessem essa experiência enquanto coletividade, corpo (At. 1:8), o que acontece quando ele é assunto aos céus e envia o Espírito Santo sobre toda a carne, no Pentecoste (At. 2:4).
Concluindo:
Precisamos viver a experiência de Romanos 12, a re-novação, voltar ao novo, a mentalidade de Deus que não se conforma com a cosmovisão adoecida em processos históricos. Temos que abandonar o estilo de liderança centralizadora, que promove mais os indivíduos do que o corpo, que tenta suprir a carência do povo e não busca revelar e testemunhar uma verdade inegociável.
Da mesma forma temos que reagir enquanto igreja, deixando a passividade, a carência enquanto motivação de escolhas e fé, assumindo um posicionamento fiel de não aceitar estar a par, nem se esquivar de exercer seu dom e vocação, exigindo dos pastores um compromisso individual com a coletividade do corpo e não um povo servindo as exigências de um líder.
É evidente que esse é um caminho estreito, por isso a passagem por esse caminho gera dor e angústia, mas a alegria que ele proporciona supera a dor, e promove marcas que agora servem como testemunho de que não somos mais escravos, mas agora exercemos a herança como filhos de Deus (Gal. 4).
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