terça-feira, 19 de julho de 2011

Cisne Negro e a negação dos negativos

O espetáculo do reconhecimento do nosso sucesso, vindo diretamente da fonte mais jactanciosa, o nosso esforço. Nada é mais orgasmático do que sermos o centro do espetáculo, aplaudidos de pé por nossa própria convicção que fizemos, e de que fizemos o melhor. Com “sangue nos olhos” perseguindo através da sujeição absoluta do tempo e da dor a nossa condição de protagonista, vamos fazendo das pessoas o meio, a ponte pra que o destaque seja o eu. 

Quantas vezes a mentira da nossa falsa humildade, da santidade hipócrita, e postura perversamente asceta, tenta enganar os outros e a nos mesmos, nos fazendo doentes carregando uma antítese daquilo que acreditamos ser a nossa identidade, se nos julgamos bons, lutamos pra esconder o mal latente que insiste em dar as caras, se nos vemos superiores, nos gastamos na tentativa laborosa de fazer com que as pessoas acreditem nisso. É como se na nossa tentativa forçada de sermos bons, não a alçamos a perfeição sem a esperteza e sedução da sagacidade e sensualidade, já que essas características, na verdade, são as motivadoras da nossa necessidade de mostrar algo que na verdade não somos.

A vida é uma dança com a verdade, que se nos esforçarmos pra vive-la com toda a dedicação e perfeccionismo, se não a encaramos nas suas vicissitudes, contradições, caos e tragédias, seremos um vulcão em constante ameaça de erupção. Somos o perfeito à medida que reconhecemos os polos de pureza e impureza, a luta entre o querer fazer o bem e o não conseguir, mas somos psicopatas e paranóicos quando nos julgamos auto-suficientes, narcisicamente isolados na angústia de não sermos percebidos nas nossas fragilidades.

O que de maior influência no impõe a busca pela perfeição é a forma em que subjetivamos as cobranças e expectativas sociais, dos pais, professores, amigos a amores, tentamos nos adequar àquilo que julgamos ser o que eles esperam de nós, ou mesmo àquilo que eles realmente esperam de nós, quantos pais se realizam nos filhos que conseguiram aquilo que o eles não alcançaram, amigos que se engrandecem na condição de apresentar o amigo vencedor, os namorados que se elevam na sua auto-estima a medida que mostram a todos o mais belo, rico ou bem sucedido companheiro, enfim uma armadilha que caímos na insegurança da nossa identidade.

A solução é assumirmos as nossas “penas negras”, não tenta-las esconder, mas expô-las e conscientemente vencê-las à medida que deixamos de temer o abandono e o desprezo, na busca por não sermos algo é nesse algo que vamos nos encaixar, então não lutaremos para não sermos, mas seremos tudo aquilo que temos em nós a condição de ser. Precisamos não tentar matar o cisne negro, mas sim viver intensamente o que podemos ser aceitando que não seremos perfeitos por não errarmos, mas nos aperfeiçoamos em reconhecermos nossas fraquezas e promovermos mais e mais nossas possibilidades e qualidades.
Fernando Pessoa diz no poema em linha reta:
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.  ... ...
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... 


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? ... ...

Me ponho como o Apóstolo Paulo em Romanos 7: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!

Cristo o perfeito que se fez homem, o homem que santo assumiu o pecado do mundo, que se permitiu matar exposto nú na maldita morte, a cruz, aquele que não temeu revelar as marcas e dores do processo doloroso que viveu, que se angustiou e pediu ajuda aos seus discípulos, que se relacionou com aqueles que manchariam sua reputação e os influenciou maravilhosamente, aquele que se santificou e purificou quando assumiu o pecado e a sujeira de todos nós, que viveu quando não teve medo de morrer.

O filme Cisne Negro é uma ficção altamente promotora de reflexões por partes dos psicanalistas e filósofos, mas eu quero aqui fazer as minhas, sem me referendar a nenhuma proposta científica ou epistemológica, mas a do homem que pensa e faz sua crítica social a partir da sua reflexão carregada de conceitos e valores pessoais, sem a preocupação de se fazer acreditado.
Rhone Giullian Psicólogo Cristão.

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