
Talvez a identificação maior que temos dos religiosos seja a vestimenta, o hábito. Este termo é extremamente esclarecedor porque fala tanto de uma roupa, que é algo exterior, como também de uma prática repetida. Então a religiosidade nos remonta a práxis históricas e culturais que vão nos orientar num relacionamento com a deidade. Essas atividades vão se instalando na cultura religiosa e vão sendo transmitidas às próximas gerações e não serão tão questionadas ou renovadas, mais repetidas sem uma consciência plena dos motivos.
Ao observar os cultos, as cerimônias, as comunicações vamos vendo que, sem generalizar, as práticas religiosas remontam épocas antigas, algumas até medievais. Pra uma nova geração, uma sociedade modernizada, cibernética e secularizada a religião sofre uma crise de sentido e relevância, isto já é realidade na Europa e parece que brevemente será realidade no Brasil. Mesmo que o Brasil ainda é um país muito religioso, a população sofre um esfriamento de um envolvimento comprometido, passando a serem ouvintes distantes.
A religião surge de duas formas, a primeira como prática cultural e a segunda como experiência pessoal. Tanto uma como a outra podem ser ou não destituídas de um processo de fortalecimento da consciência e de uma compreensão crítica, onde a pessoa age a partir de uma motivação intrínseca provinda de um entendimento e reflexão sobre a existência e identidade da deidade e consequentemente da forma com que vai se relacionar com ela.
Alguns pensadores vão se colocar contrários a ideia da existência de uma religiosidade consciente, mas isso não pode ser considerado uma regra absoluta. Com certeza existem questões inconscientes que influenciam grande parte das pessoas religiosas, mas isso não pode ser nem de longe generalizado. Quantas revoluções e transformações de pessoas que desenvolveram uma consciência da identidade divina e da relação religiosa de forma a sentirem o desafio de luta por causas extremamente nobres e influenciar o pensamento social em sua contemporaneidade.
Então a religião não é em si o mau, mas mau é sua significação cultural que tomou. A religião conceituada enquanto relação próxima e transformadora com o amor de Deus é algo extremamente atual e relevante. Então as práticas e vivências religiosas enquanto inspiração e apontamentos sem que seja regra absoluta ou santificada, pode levar as pessoas a um relacionamento mais consciente e livre com Deus. Porém, quando queremos determinar as formas e os meios para enquadrar as pessoas nos modelos pré-estabelecidos e convencionados, estamos formando pessoas que vão repetir as práticas, mas como repetidoras massificadas não promoverão transformações e desenvolvimento social e religioso.
O líder religioso que queira permanecer no tempo como voz e inspiração, reconhecido na sua relevância, deve compreender seus motivos e relacionamento com Deus em primeiro lugar, e então buscar uma compreensão profunda da sua realidade social, dos desafios contemporâneos de ética e justiça, só assim o conhecimento e identidades desenvolvidos na relação com Deus vai lhe instrumentalizar a trazer respostas coerentes e estabelecer um ambiente religioso promotor da saúde integral de seguidores. É nesta perspectiva que acredito na religião cristã como via de acesso de transformação social, lembrando aqui grandes nomes como Martin Luther King, Madre Tereza de Calcutá, João Calvino, entre os milhares de cristão que influenciaram e transformaram o meio em que viviam.
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